AS MINHAS GUERRAS

SETEMBRO 2020

SAUDADES

Passatempo de velho é sinônimo de saudade. Passatempo de velho aposentado, sem muitas coisas úteis ao famigerado capital é vender lorota, tentar lembrar – malgrado esquecimento que teima em nos atacar – das boas coisas que fez na vida e, para alguns, uma tentativa de esquecer as besteiras que fez enquanto pode. Passatempo de velho em tempos de pandemia é tentar se esconder para escapar da dita cuja, pois pode representar o velho passaporte só de ida para um local florido (nem sempre) onde só se entra de pés juntos, para a frente.

 

As tecnologias da atualidade não deixam esquecer com tanta facilidade, pois elas registram até os pensamentos da gente que nós não dissemos para ninguém. Foi assim que mais uma vez, depois dos caprichos da manhã, ao pegar no telefone celular escutei uma música da qual me orgulho, muito embora tivesse preferido não a conhecer, mas são escolhas que a gente faz, por isso deve assumi-las como sendo nossa responsabilidade. Sou assim mesmo, não renego o que fiz e se o fiz consciente jamais me arrependerei de o ter feito. Foi pensando nisso que passei boa parte desta manhã escaldante do fim de setembro de 2020.

 

O assunto, em si, é velho, recorrente e teimoso: “Mueda Terra da Guerra” – um fado (musica símbolo de Portugal em todo mundo) criado e interpretado por um colega de desdita nas terras africanas, onde ficaram “ad aeternun”, “ad infinitun”, mais de uma dezena de milhares de jovens que mereciam outro destino. Tal como na pandemia, nem todos que são “tocados” acabam falecendo; assim, nem todos que foram para essa guerra sem motivo sério que a validasse, por lá ficaram, muitos voltaram ao conforte de seus lares e ao aconchego de seus familiares. Tive a sorte de ser um destes últimos. Mas nem tudo foi nem continua sendo fácil para alguns muitos destes que retornaram. Muitos deles estão sofrendo do famigerado “trauma pós guerra”, alguns deles atingidos mais profundamente apenas vegetam. Outros, por falta de apoio estatal que nos havia prometido uma estrutura de amparo no retorno, no campo de emprego, ao encontrarem as famílias desestruturadas, foram viver nas ruas das cidades, vivendo da caridade alheia. Alguns muitos voltaram incompletos, sem braços (assim no plural, pois uns vieram sem nenhum dos braços ou pernas, outros só com um/a), outros sem um olho, alguns completamente cegos e, conheço casos, pelo menos dois, de rapazes que tiveram um dos testículos arrancados à bala. Pode parecer cômico e até seria se não fosse trágico ao ponto de um deles se ter suicidado, segundo justificativa dele por escrito, por não ter como explicar à esposa o ocorrido.

 

Neste dia em que já se completaram 49 anos depois do meu retorno, ainda lembro dos maus e bons momento que por lá passei. Reparem que afirmo maus e bons momentos. Foi esse amalgama de sentimentos que de todos nós verdadeiros heróis de uma pátria madrasta que não nos reconhece enquanto aquilo que somos: HERÓIS e EX-COMBATENTES. Não fossem as poucas fotos que conseguíamos graças ao aparecimento por lá destas câmaras (figura 1), inicialmente depois, mais tarde os chineses levavam para nós, a preço de ouro estas outras (figura 2), não tenho como provar aos meus netos que fui um combatente de guerra. Detalhe: muitos conseguimos comprar dos “chinas” a nossa Konica, mas eram difíceis e caros os filmes de 12 a 36 poses e muito mais difícil a revelação que era feita na capital Lourenço Marques (hoje Maputo), para mim que estive em Moçambique. Quantos rolos de fotos se perderam na ida ou na volta? Não sei dizer.

 

Atrevo-me a dizer que fomos voluntariamente esquecidos para não nos tornarmos uns estorvos aos Srs. do Poder. Mas, que eu saiba, a nossa maior reivindicação é a nossa Honra ao Mérito, o reconhecimento da nação que supostamente fomos defender, para depois sabermos que tudo não passara de um teatro de marionetes em palco real, no qual nós éramos as marionetes e os dirigentes dos quatro países (Portugal, Guiné Bissau, Angola e Moçambique) eram os manipuladores delas. Fomos traídos, enganados, explorados e sacrificados durante 15 anos que foi o tempo suficiente para que a exploração final dos três territórios desse frutos suficientes a um bando de salafrários que se diziam salvadores da pátria que queriam enfrentar o IN (sigla que significa inimigo), mas jamais pegaram numa arma. Pegar nas armas, enfrentar as emboscadas, os ataques surpresa através de morteiros (na minha época eram morteiros de 86mm, mais tarde chegaram os de 122 e até mísseis terra/terra) isso era para o "Zé Pacóvio", entre tantos outros como eu que fui voluntário, por não ter na minha índole o intuito da fuga, da deserção, do abandono do dever.

 

Pois é assim que há dias em que me encontro com a melancolia que tudo isto provoca em mim. A situação se agrava quando a família não reconhece e não respeita o meu desejo de isolamento. Nada digo, curto a minha mágoa, os meus desalentos, as minhas tristezas e alegrias de forma solitária, quando muito desabafo com o meu computador. Nessas horas não me incomoda o que pensem de mim, certamente têm razão. Por esse motivo silencio.

 

          Foto 1                     Foto 2

    yashika             

               

 

Quem desejar escutar o fado de que vos falei - legendado - é só seguirem o link:

https://www.youtube.com/watch?v=MBQ_V10Nnj0

 

Agosto/2020

Quem sairá vitorioso?

Enfrentamos,neste momento uma das piores guerras: uma guerra silenciosa contra um inimigo invisível, covarde, que ataca deixando atrás de si um rastro de morte e afetados para o resto de suas vidas, Não há remédios e muito menos produtos preventivos com tal moléstia. Parecia que eu adivinhava quando na retrospectiva de 2019 anunciava que o ano do duplo 20 prometia. Mal imaginava eu as proporções que este amo iria tomar. As mortes aos milhares não fizeram alguns dirigente imaginar nada pior que uma gripezinha passageira.

Enganaram-se (e não o admitem) mesmo diante de um número assustador como os 100.000 mortos e uma contaminação que ultrapassa os dois milhões de pessoas. Pessoalmente e em razão da minha saúde e da de todos aqueles que comigo dividirem o sacrifício de aguentar um louco no poder, pois em plena pandemia não tem sequer um equipa ministerial na área da saúde, sinto-me apavorado com o comportamento completamente irracional das pessoas que mesmo conhecedoras da situação não respeitam as regras mínimas de proteção pessoal e de colocação em risco de contaminar aqueles que seguem as regras elementares de proteção.

O povo está louco (efeitos da pandemia?) e o mundo de pernas para o ar, as explosões em Beirute, o incêndio na Índia e também na República Tcheca, a queda do avião Canadaire entre Portugal e Espanha (com dois mortos, na defesa de mais um incêndio) ainda ousam desmatar um dos maiores produtores de oxigênio e, principal regulador de chuvas no hemisfério sul, de forma completamente tresloucada em busca do vil metal que existe no subsolo da região.

Muito se falou na possibilidade de mudanças sociais na pós pandemia. Não passa de uma falácia, pois as pessoas não querem começar a transformação por si mesmas. A hipocrisia implica que sejam os outros a mudar para o meu bem estar, Se todos pensarem assim estaremos entrando na fase final da atual sociedade que não terá remorsos de eliminar o próximo para se dar melhor nesta vida. VIDA?

Alguns a quem não receio de tratar de bandidos, talvez tenham um resquício de vida os demais definharão até ao momento final. Não desejo ml a ninguém, apenas espero que a Mãe Natureza seja implacável com toda a população mundial, Ninguém é mais merecedor que os outros em se tratando de hipocrisias.

O tempo nos mostrará qual o caminho mais certo a seguir os divergentes que arquem com as consequências da irresponsabilidade,

 

Janeiro/2020

O ano que promete

2020 o ano em que completo 71 anos (podia dizer primaveras, pois foi na primavera que eu nasci), mas considerando que neste espaço vou falar das “minhas guerras”, não gostaria que alguém pensasse que eu estava a pensar na “Primavera de Praga”, renomado filme que retrata justamente alguns dos horrores das guerras.

Não falo de brigas de rua, nem luta de classes, falo de guerras com armas, mortos, feridos, estropiados, eventrados, doentes mentais e tudo que de ruim pode um ser humano padecer.

Assim, por alto, das cinco que já aconteceram e atingiram de algum modo o plano mundial, já conto cinco, muito embora só tenha enfrentado três. Acreditem que mesmo sendo apenas três, são mais que suficientes para deixar o psíquico de qualquer um bem abalado. Tenho resistido, Penso merecer uma condecoração, ou pelo menos que a história me coloque meu devido lugar, ao mesmo tempo em que coloca todos os outros companheiros irmãos de luta. Não sou, não quero ser, nem serei, jamais, o herói solitário.

Esta é, portanto, uma longa história que precisarei ir contando aos poucos (qual novela/série da globo). Por isso convido os meus amigos leitores a acompanharem mais esta saga que, espero não seja a última, pretendo viver. Eu sei, não sou mais nenhum jovem na idade, mas na mente, felizmente, pareço um jovenzinho dos seus 25 anos, em pleno vigor, embora a carcaça já não aguente o tranco. Boa parte desta saga já está registrada em um livro que acabei de publicar (e para o qual já tenho o segundo volume pronto, faltando apenas o apoio do vil metal para realizar mais esse desejo).

Como sei que muita gente não poderá ter acesso aos livros na sua forma física, vou tentar aos poucos deixar aqui registradas essa minhas guerras. Posso dizer que são muitas, mas nem todas são comuns de muitos (algumas são particulares, mas nem por isso, menos importantes que as demais). Preciso confessar que a melhor forma de conhecê-las é através da leitura dos livros por estes serem portadores de maiores detalhes e minúcias.

O segundo terá um título muito próximo a “Narrativas e Vivências” sobre um fundo bem português: azulejos, tal como mostra na figura a seguir:

Tudo que não foi possível colocar no primeiro livro, para não quebrar uma sequência lógica, eu preferi trazer para este novo livro, bem mais “leve” que o primeiro, não que as narrativas não contenham 199% de verdades, mas porque deixei aquelas mais soltas, acontecimentos quantas vezes banais que se transformaram numa narrativa que ajuda a compreender todas essas minhas guerras de que falo no início deste post. Além disso também traz velhos ditados (e outros não tão velhos) que nos ajudam, sobremaneira a refletir e levar uma existência um pouco menos carregada pelos fardos que a vida nos vai colocando sobre os ombros.

Tenho a minha Dissertação de Mestrado pronta para publicar (depois de 24 anos, finalmente eu consigo comprovar a minha tese dissertativa do fim do Mestrado), Tenho, também a minha Tese doutoral preparada para a publicação, mas quero dar mais um tempo para, tal como aconteceu com a Dissertação, ela venha a finalmente se comprovar na prática, pois teoricamente , com apoio em 120 documentos, fora as opiniões que “ouvimos do nosso referencial teórico” ela esta consolidada, fundamentada, mas no meu entendimento necessita da comprovação no campo empírico em que situei a minha pesquisa.

Já estão aprovados e até “rabiscados” mais dois projetos para duas outras obras. Estou, finalmente aposentado. O tempo sobra e a inércia me machuca demais. Procuro o que fazer e o que eu sei fazer (ah, não me pergunte, pois passaria aqui o resto do ano a falar do que sei fazer), mas neste momento o mais importante é saber o que ainda posso fazer, até como forma de vencer uma de minhas guerras.

Peço-lhes um pouco de paciência. Logo que possível (na medida em que aqui for escrevendo), irei revelando os novos projetos.